Dr. Fábio Tadeu Moura Lorenzetti

Médico Otorrinolaringologista - CRM: 95864

Distúrbios do Sono

Otorrinolaringologia Clínica e Cirúrgica

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CONTRA O RONCO - [ 28/11 ]
Um "milagre" no céu da boca
Telma Silvério
Notícia publicada na edição de 28/11/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno Ela.



Uma injeção no céu da boca deverá tornar-se numa nova opção de tratamento para quem ronca. Essa aplicação feita com substância esclerosante pode diminuir ou acabar com o ruído provocado pela passagem do ar. A pesquisa que ganhou repercussão pelo sucesso no custo-benefício, inclusive fora do país, é do médico sorocabano Fábio Tadeu de Moura Lorenzetti, otorrinolaringologista e certificado em Medicina do Sono. Há quase quatro anos ele desenvolve o estudo que será transformado em tese de doutorado. O trabalho será publicado até o final do ano que vem. Então, poderá ser adotado nos consultórios.

O especialista explica que a injeção denominada roncoplástica é composta de substância esclerosante, parecida com a utilizada no tratamento de vasos (varizes). A pesquisa envolve três sessões, sendo feitas três aplicações em cada uma das sessões, com intervalo de pelo menos um mês e dosagem padronizada. A aplicação é feita com seringa, agulha, abaixador de línguas, par de luvas, a substância e o spray de anestésico para amortecer a garganta antes da aplicação. O gasto em material não ultrapassa os R$ 25,00, enquanto uma outra opção de tratamento pode chegar a R$ 2 mil, sem o custo do médico.

Essa outra alternativa de tratamento para o ronco primário a que ele refere-se é a radiofreqüência, uma aplicação que oferece resultado parecido com o tratamento atual, com a formação de um tipo de fibrose na região. As injeções do novo tratamento são feitas no palato, região flácida próxima à amídala, em torno da ‘campainha. Após o medicamento ser difundido cria um aspecto esbranquiçado e causa um tipo de fibrose, uma retração, ou seja, o local fica endurecido de forma a reduzir ou acabar com a vibração que causa o ronco.

Os testes em pacientes ocorrem há dois anos, no ambulatório do Hospital das Clínicas, até então, com 17 pessoas com perfis pré-definidos. As pessoas têm o chamado ronco primário, sem apnéias (interrupção durante o sono) ou apnéia leve. Ele esclarece que os casos com apnéias graves são descartados devido às complicações, pois o paciente pára de respirar e, com isso, diminui o oxigênio na corrente sangüínea. Tudo bem fazer o tratamento, mas se a apnéia estiver num estágio leve. Os pacientes submetidos a esse tratamento também não são obesos.

Ele explica que o obeso acentuado tem um depósito de tecido gorduroso ao redor da faringe, que resulta em seu estreitamento. Talvez no futuro venha a fazer aplicação em obeso, mas por enquanto preferimos excluir essa variável. Outro critério é a pessoa não ter feito nenhum tipo de cirurgia para tratar do ronco. Nesse caso a pessoa tem a região alterada e com alguma fibrosa, o que pode não trazer o resultado esperado. Os pacientes com indicações para intervenções também foram descartados para esse procedimento.

A pessoa com amídala ‘enorme e praticamente fechando a faringe exige um outro tipo de tratamento e, nesse caso, deve ser indicada cirurgia para desobstruir a via aérea, comenta o especialista. A tentativa foi selecionar o máximo de pessoas saudáveis: geralmente com amídalas pequenas e sem comorbidades graves (doenças como insuficiência coronariana, infartos e outras que comprometam sua saúde). Queríamos evitar riscos, embora o procedimento seja simples, justifica.

 

Aplicações e notas

 

A cada sessão é esperada uma resposta: se o ronco já melhorou, melhorou mas ainda ronca, etc. Independente dessa resposta, o máximo de sessões são três. Até agora a satisfação chega a 85%. Essa avaliação inclui entrevista, exame físico, nasofibroscopia, ressonância e polissonografia, o exame do sono. Ainda antes o paciente dá uma nota de 1 a 10 para seu ronco. Geralmente, a média é de 8 a 9 e, depois, conforme resultado parcial, de agosto passado, era de 3,7. Se considerar o mesmo critério de sucesso dos Estados Unidos (EUA), o resultado vai para 87,5%, calcula o médico.

Ele afirma que a parte endurecida é perceptível, mas que não compromete na deglutição e no paladar. O único efeito observado em alguns pacientes foi o aparecimento de aftas, que pode demorar algumas semanas para cicatrizar. Também ocorre um pouco de inchaço no local. As substâncias utilizadas são o ethanol, tipo de álcool, e o ethamolin (nome comercial), já usados para esclerosar varizes, diz. O tratamento é aplicado apenas em adultos - homens e mulheres - já que as crianças com histórico de ronco, geralmente, passam por outros tipos de procedimentos.

Lorenzetti constata que a cada novo tratamento que surge as pessoas tendem a achar que apareceu a fórmula para seu problema. Na verdade não é bem assim. É um tratamento muito bom para alguns pacientes selecionados. Mesmo assim seus estudos têm despertado a atenção nos vários congressos em que participou pelo país, e mesmo no México, onde esteve em agosto passado. Ele esclarece que esse tipo de estudo não é novo, pois em suas pesquisas identificou uma experiência parecida há 50 anos atrás, com injeções em pontos diferentes do palato.

Não sei por quê ninguém animou-se a dar continuidade. Em 2001 outra publicação de dois médicos, em Washington, mas a substância saiu do mercado e inviabilizou o estudo. Mas um efeito colateral teria sido identificado nas pesquisas antigas: histórico ulcerações e fístulas, as complicações mais temidas. Por isso optamos por dosagens menores, em três pontos para distribuir melhor o medicamento, e com maior número de sessões.

 

Índices e conseqüências

 

Estudos revelam que uma média de 40% da população ronca enquanto dorme. Nos casos em que existe a apnéia associada esse índice cai para até 9%. Mas os números são altos se considerar os prejuízos que o ronco pode causar. Ele explica que o ronco é um problema que afeta a qualidade de vida da pessoa e de familiares, principalmente do cônjuge. Existem casos em que o casal dorme separado, e que em viagens os colegas negam-se a dividir quarto, etc. Ele revela que os homens resistem mais em buscar tratamentos.

Alguns acreditam que o ronco seja considerado até normal, diz. Ele esclarece que o ronco simples, primário, incomoda e afeta mais a qualidade de vida, enquanto os casos envolvendo a apnéia em estágio moderado para severo trazem outras complicações. Entre eles aumentam os riscos das pessoas terem problemas cardiovasculares, infarto, derrame. Dorme mal, tem sonolência e, com isso, aumenta o risco de dormir ao volante e sofrer acidentes, e mesmo acidentes no trabalho, alerta.

 

telma.silverio@jcruzeiro.com.br

 
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